terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Os melhores de 2013. E balanço do ano que agora termina

31 de Dezembro de 2013. Nestas últimas horas do ano é tempo de fazermos um balanço do que se fez (ou não) ao longo dos últimos meses deste ano. Por estes lados, como é de Cinema que falamos (não tanto como deveríamos ou gostaríamos, mas isso é outra conversa), nunca é tarde para postar a lista dos melhores do ano. Ao contrário dos últimos anos, desta vez esforcei-me por escolher uma lista de 10 em vez dos 20 melhores do ano. Até porque a tarefa foi mais fácil em relação a outros anos, pois as estreias comerciais em 2013 foram relativamente fracas. Como sempre, a lista apenas inclui filmes que estrearam comercialmente em Portugal ao longo de 2013. Muitos ficaram de fora e talvez pudessem entrar na lista, mas não há tempo para tudo. E alguns filmes vistos em festivais também aqui poderiam entrar de bom grado, mas não é esse o propósito desta lista. Sem mais demoras, aí vai a lista dos melhores do ano:

1 - The Hunt - A Caça, de Thomas Vinterberg

2 - Para Lá Das Colinas, de Cristian Mungiu

3 - No Nevoeiro, de Sergei Loznitsa

4 - Não, de Pablo Larrain

5 - A Rapariga de Parte Nenhuma, de Jean-Claude Brisseau

6 - Noutro País, de Sang-Soo Hong

7 - Like Someone In Love, de Abbas Kiarostami

8 - Fausto, de Aleksandr Sokurov

 9 - Noiva Prometida, de Rama Burshtein

10 - Tal Pai, Tal Filho, de Hirokazu Koreeda

Para terminar este post, um pequeno balanço do que foi o ano cinéfilo por aqui. E se há algo que tenho obrigatoriamente de destacar é o ciclo da Cinemateca dedicado a Fritz Lang. A nível pessoal foi uma epopeia acompanhar a integral do realizador de «Metropolis», ao longo de dois meses certinhos, e se há conclusão a tirar é que Fritz Lang é, sem sombra de dúvidas, um dos maiores realizadores de todos os tempos. Ao longo de 42 filmes, desde o período mudo ao regresso à Alemanha natal, passando pelo fabuloso período norte-americano (na minha opinião o seu melhor, sem com isso estar a falar mal dos outros períodos), praticamente não há obras fracas na filmografia do cineasta alemão. A única excepção, que desiludiu um bocado foi esse estranho objecto chamado «Guerrilheiros nas Filipinas». Mas a alguém que filmou obra-prima atrás de obra-prima acabamos por perdoar tudo e o saldo final foi claramente positivo. Várias foram as sessões em que tive vontade de levantar-me da cadeira da sala no final e ir a correr bater à porta da sala de projecção pedir ao projeccionista para voltar a passar o filme. Lá me contive e contentei-me com uma pequena recordação desta fantástica saga cinéfila (os bilhetes de todas as sessões):


Em ano de grandes dificuldades para a Cinemateca Portuguesa a realização desta retrospectiva integral dedicada à obra de Fritz Lang é mais do que uma prova de que a instituição sedeada na Barata Salgueiro faz falta e merece ser acarinhada por todos os que gostam de Cinema. Pena que, tal como acontece um pouco por todo o lado, grande parte das sessões esteja vazia e custa assistir a grandes filmes com salas às moscas. Acontece frequentemente e infelizmente aconteceu também em algumas sessões deste ciclo. Para 2014 faço votos que a comunidade cinéfila de Lisboa se vire um bocado mais para a Cinemateca e opte por ver (ou rever) filmes na Barata Salgueiro em vez de se juntar em massa apenas na altura das manifestações em defesa da instituição. Que também fazem falta, é certo, mas quando depois dessas manifestações as pessoas se esquecem de frequentar a Cinemateca, quando ela tanto precisa de ser acarinhada, esse apoio de pouco vale.



2013 foi também um ano de descobertas e aprofundamento do trabalho de vários realizadores, dos quais destaco dois: Yasujiro Ozu e Billy Wylder. Este ano foi também o ano em que tive a oportunidade de ver pela primeira vez a magnífica trilogia de Apu, de Satyajit Ray, um grande nome do Cinema indiano, bem diferente da mais popular Bollywood. E, last but not least, este foi o ano em que (preparem as pedras...) fiz as pazes com o Cinema de Andrei Tarkovsky, cineasta que era para mim quase como que um ódio de estimação. Mas, tal como grande parte dos ódios de estimação, sem qualquer sentido e penitencio-me por durante tantos anos ter estado afastado destes filmes por simples embirração. Ver pela primeira vez «A Infância de Ivan» ou «Andrei Rublov», este último precisamente no grande (enorme) ecrã da Cinemateca há poucos dias, deu-me um novo olhar perante a obra deste grande realizador que será um dos que pretendo aprofundar ao longo do próximo ano.



Um último ponto para finalizar, desta vez um aspecto negativo do ano que agora termina: o encerramento do cinema King. Durante anos, a par da Cinemateca, o King foi a 'minha escola' de Cinema, onde vi filmes que não passavam em mais lado nenhum e que de outra forma não teria visto em sala ou talvez nunca tivesse visto de todo. Ao longo dos últimos anos tenho visto muito Cinema em sala, mas as principais recordações foram precisamente do King, onde vi pela primeira vez filmes de Kiarostami, Elia Suleiman, obras mais arriscadas de nomes como Gus Van Sant, entre muitos outros. Podia dar inúmeros exemplos, mas estes são os primeiros que me vêm à cabeça neste momento. Morreu o King, mas não morreu o Cinema. E esperemos que em 2014 a aposta da Midas no Cinema Ideal venha ocupar de certa forma a brecha deixada em aberto pelo encerramento desta mítica sala de culto lisboeta, praticamente a última das grandes salas dedicadas a este tipo de Cinema.



E pronto, é isto. Resta-me desejar a todos os leitores e seguidores do Shut up and watch the movies um excelente 2014, com a promessa de que vou tentar tornar o blogue mais activo do que esteve ao longo dos últimos meses. Feliz ano novo a todos e bons filmes!!!

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Duetos Cinéfilos #15


Música: Metropolis (Kraftwerk)
Filme: Metropolis (Fritz Lang)

Para abrir o apetite para a retrospectiva de Fritz Lang anunciada esta semana pela Cinemateca Portuguesa. A iniciativa vai decorrer entre Outubro e Dezembro, num trimestre que promete ser de redescoberta da obra do cineasta alemão. Além de Lang, vão passar pela Barata Salgueiro as cinematografias de Claude Lanzmann e Alain Cavalier, assim como dois ciclos com filmes oriundos dos arquivos da Cinémathèque Royale de Belgique e da Cineteca di Bologna. Ainda para o final do ano está prometida pela Cinemateca uma homenagem ao trabalho do realizador, produtor e distribuidor de António da Cunha Telles.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Frankenstein em Hoyuelos

«O Espírito da Colmeia» é um dos mais belos filmes de sempre. Escolher uma só cena do fabuloso filme de estreia de Victor Erice é bastante inglório, mas como este é um blogue de Cinema, parece adequado partilhar a cena da projecção de «Frankenstein» numa sala improvisada na aldeia de Hoyuelos. Muitos são os filmes que conseguem captar o fascínio exercido pela Sétima Arte nos espectadores, mas poucos, raros diria mesmo, conseguem algo tão sublime como esta bela sequência de uma grande pérola do Cinema espanhol. E ter a oportunidade de ver uma tamanha obra prima apresentada pelo seu autor na Cinemateca foi qualquer coisa de extraordinário.

sábado, 3 de agosto de 2013

Batalha do Pacífico, de Guillermo del Toro (2013)

Os filmes sobre Kaijus (monstros marinhos, em japonês) nunca tiveram grande tradição fora do cinema oriental, mas de vez em quando surgem filmes feitos por cineastas oriundos de outras latitudes que tentam recuperar esse espírito, cujo expoente máximo (ou talvez mais popular) será a célebre série de filmes protagonizada por Gojira, também conhecido como Godzilla. Se este monstro nipónico foi recuperado no final dos anos 1990 por Roland Emmerich, com Godzilla a invadir Manhattan, desta vez foi o mexicano Guillermo del Toro a prestar homenagem ao género, com «Batalha do Pacífico», projecto que agarrou depois de abandonar a adaptação de «O Hobbit».

A abordagem de del Toro vai um pouco mais além da de Emmerich, ao focar o filme num confronto entre a Humanidade e um conjunto de monstros que emerge das profundezas do Pacífico para tomar conta do planeta Terra. A resposta dos humanos contra esta ameaça está nas mãos de um grupo de equipas especiais que controlam gigantescos robots denominados jaegers para defrontar os kaijus. O filme acompanha o confronto final, quando os governos mundiais decidem cortar os fundos desta espécie de projecto militar numa altura em que os monstros estão mais fortes do que nunca. Resta ao líder do projecto um último esforço para derrotar de vez os kaijus, com a ajuda de um antigo piloto de robots caído em desgraça, numa batalha final sem precedentes.

No seu âmago, «Batalha do Pacífico» é uma homenagem sincera a este tipo de cinema fantástico oriundo de terras orientais. Quem cresceu a ver na televisão a série Power Rangers, já uma adaptação norte-americana de um produto japonês, perceberá a lógica deste universo. Mas, tal como geralmente acontece com todas imitações, não é perfeito e acaba por falhar ao tentar alcançar a tal perfeição do material de origem. Aqui tudo é em grande e carregou-se em força no campo dos efeitos especiais para criar excelentes criaturas e robots, esquecendo-se del Toro de algo que parece andar esquecido ultimamente nos blockbusters dos últimos tempos: um equilíbrio bem conseguido entre divertimento e um lado mais sério. O que há em excesso (o lado mais sério, que dá um tom bastante negro à história), falta no campo da diversão. Não há momentos divertidos em «Batalha do Pacífico». E os que há (basicamente as cenas protagonizadas pela dupla de cientistas loucos ao serviço dos heróis e pelo enorme Ron Pearlman, com uma personagem que entra a matar mas acaba por ser desperdiçada), falham um bocado o alvo.

Uma pena, pois apesar de as expectativas em torno de «Batalha do Pacífico» não serem tão grandes quanto isso, esperávamos um pouco mais de Guillermo del Toro, um cineasta que raramente nos desiludiu no passado e regressa à cadeira de realizador cinco anos depois do segundo episódio de «Hellboy». Não é um mau filme para este Verão, onde os blockbusters têm sido bastante fracos, mas podia ser melhor tendo em conta o historial do seu autor. Se há algo que nos deixa é saudades do bom velho del Toro, que esperamos ver de novo em forma no futuro.

Nota: 3/5

sábado, 13 de julho de 2013

Wise man says #1

«The entire conventional approach (as exemplified by even the best American and British films) is wrong. Because the conventional approach tells you that the best way to tell a story is to leave out all except those elements which are directly related to the story, while the master's work clearly indicates that if your theme is strong and simple, then you can include a hundred little apparently irrelevant details which, instead of obscuring the theme, only help to intensify it by contrast, and in addition create the illusion of actuality better.»

Satyajit Ray em 1950, após uma visita a Londres onde 'aprendeu' Cinema durante seis meses a ver filmes. (citação tirada dos extras de uma edição do DVD de «Pather Panchali» («O Lamento da Vereda», título português) e também disponível neste artigo centrado no filme «The Chess Players» e na carreira do realizador indiano)

terça-feira, 9 de julho de 2013

Boudu, Boudu, para onde vais tu?

Há filmes que nos marcam, seja porque razão for. Mais recentemente um dos que teve esse efeito no autor destas linhas (que por estes dias tem andado com falta de tempo para actualizar este espaço) foi «Boudu Querido», uma pérola de Jean Renoir protagonizada por um não menos excelente Michel Simon, em mais uma das suas magníficas criações. E vá-se lá saber porquê este foi um dos títulos de Renoir (cineasta que tenho tido o prazer de vir a descobrir aos poucos na Barata Salgueiro, que mesmo em época de agonia ainda nos dá alguns tesouros a ver) que já andava para ver há tanto tempo e tardou em ser visionado, apesar da insistência de um caro amigo que se fartou de me falar neste filme. Mas, como diz o ditado, vale mais tarde do que nunca. E, verdade seja dita, «Boudu Querido» acabou por ser um dos filmes que mais me marcou ultimamente. Tanto que me deu para escrever algumas linhas sobre o filme. Não farão inteira justiça ao filme, pois não me sinto à altura de conseguir escrever algo de jeito sobre tamanha obra-prima (nem mesmo sobre qualquer obra de Renoir, já agora) à espera de ser descoberta por quem ainda não o fez. E se conseguir fazer com que alguém vá a correr ver esta preciosidade depois de ler este post, já me dou por contente.

Não sei de onde vem o fascínio pela personagem de Boudu, um vagabundo parisiense com uma pequena costela de anarca que é salvo do suicídio por um livreiro de classe média que resolve intervir quando o anti-herói desta história se resolve atirar ao Sena. Mas muito provavelmente vem do contexto pessoal (e quiçá nacional, pois como diz o outro, isto no fundo anda tudo ligado) que tenho vivido nestes últimos tempos e que me fez pensar que no fundo, no fundo, o Boudu é que tinha razão. E se foi salvo das águas para não morrer (e neste aspecto o título original - «Boudu Sauvé Des Eaux» - acaba por ser muito mais adequado, ao contrário da tradução para português, algo infeliz, mas não de todo incorrecta), às águas irá tornar para se salvar da 'vida mundana' que lhe querem oferecer (ou impingir, se preferirmos em português correcto) quando, através de um golpe de fortuna, consegue ficar rico. Mas as riquezas nada dizem a Boudu, que antes prefere a companhia dos animais à dos homens, mais interessados na fortuna monetária de Boudu do que na sua pessoa.

Mas mais não digo, pois acho que o melhor é mesmo fazerem um favor a vocês próprios e seguirem este link para descobrir o magnífico Boudu. Não é a melhor forma de o fazer, mas à falta de melhor, não é má de todo. E a versão que aqui está é magnífica, pois alguém teve a excelente ideia de colocar no YouTube uma versão restaurada do filme. Agora, como diria outro Grande (assim mesmo, com G maiúsculo) do Cinema, apetece também lembrar uma bela frase de «Recordações da Casa Amarela» a propósito da personagem de Boudu: «Vai e dá-lhes que fazer».

quarta-feira, 19 de junho de 2013

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Cenas #3


In God(ard) we trust.
(cena de «O Acossado», a longa-metragem de estreia de Jean-Luc Godard)

quinta-feira, 13 de junho de 2013

O digital é muito bonito...

...mas a película há-de ser sempre a película. Seja como for, fica uma sugestão para este fim-de-semana: aproveitar a onda de reposições de clássicos para ver (ou rever) no grande ecrã o filme «Até à Eternidade», de Fred Zinnemann. Não é o «Lawrence da Arábia» ou o «Vertigo», mas não deixa de ser um filme que vale a pena ver. E muito provavelmente o melhor no conjunto de estreias desta semana (o que diz muito sobre o estado do cinema nos dias de hoje, mas isso são contas para outro rosário). Para abrir o apetite fica uma das cenas mais marcantes do filme.


segunda-feira, 10 de junho de 2013

Leitura recomendada: o trabalho de arte de «Blade Runner»


Para os fãs da ficção científica mais séria «Blade Runner - Perigo Iminente» é considerado como um dos grandes clássicos do género. Realizado em 1982 por Ridley Scott a partir de uma novela de Philip K. Dick («Do Androids Dream of Electric Sheep?»), é um dos grandes filmes de culto da década de 1980, de tal forma que há várias versões do filme, todas reunidas em edições especiais do filme que foram saindo ao longo dos últimos anos. Na altura da estreia da primeira versão chegou aos escaparates um pequeno livrinho com imagens do trabalho de arte do filme, onde se pode ver a génese do projecto de Ridley Scott antes de chegar ao grande ecrã. Apesar de ser difícil de encontrar a versão em papel, alguém se lembrou de colocar on-line uma versão digital de «Blade Runner Sketchbook», que pode ser visualizada aqui. Um pequeno brinde para os fãs de um dos melhores filmes de ficção científica de sempre e de toda a obra de Ridley Scott.
Via Open Culture

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Cenas #2

A Coleccionadora, de Eric Rohmer

Com o calor a chegar, vale a pena recordar um bom filme de Eric Rohmer, um dos realizadores que melhor soube filmar os mistérios do amor.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

A Palma das palmas, segundo o CCOP

Para aproveitar a vaga do Festival de Cannes, o Círculo de Críticos Online Portugueses (CCOP) acaba de divulgar os resultados de um top especial dedicado a um dos principais festivais de cinema do mundo. Com o objectivo de escolher a melhor Palma de Ouro atribuída durante o certame, os membros do CCOP foram convidados a votar nos filmes que obtiveram tal distinção. E o filme melhor classificado foi...«Apocalipse Now», de Francis Ford Coppola, o épico sobre a Guerra do Vietname que marcou a carreira do cineasta, para o bem e para o mal, que alcançou uma média de 9,60 (em 10). O segundo lugar deste top foi para um filme assinado por um outro realizador norte-americano da mesma geração, Martin Scorsese, por «Taxi Driver», Palma de Ouro em 1976 (com uma média de 9,33 em 10). Na terceira posição, a fechar o pódio, «O Leopardo», de Luchino Visconti, com uma média de 9,17. Os restantes resultados podem ser consultados na íntegra aqui.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Duetos Cinéfilos #13


Música: The White Lady Loves You More (Elliot Smith)
Filme: Rosetta (Jean-Pierre e Luc Dardenne)

segunda-feira, 27 de maio de 2013

O Grande Gatsby, de Baz Luhrmann (2013)

É fácil embirrar com um filme como «O Grande Gatsby», a versão de Baz Luhrmann do clássico escrito por Francis Scott Fitzgerald considerado por muitos como um dos grandes livros sobre o período dos loucos anos 20 do século passado e uma das principais obras da literatura norte-americana. Tal como fizera com «Romeu e Julieta», o realizador australiano continua a dar a volta às regras do jogo e recria o material de origem à sua maneira, com um estilo bastante peculiar. Se na versão da peça de Shakespeare Luhrmann traz a tragédia do bardo inglês para os dias de hoje, desta vez a acção permanece no período dos anos 1920 originais, mas, como é apanágio do cineasta, com alguns elementos estranhos à tal época. Um desses elementos é a banda sonora, onde as loucas festas por onde andam as principais personagens de «O Grande Gatsby» deixam de ter a música de época, substituída por ritmos mais actuais, com algum pendor nos ritmos hip hop.

Baz Luhrmann já tinha feito algumas 'experiências' musicais anteriormente em «Moulin Rouge», mas nesse caso o estranho até se entranha. Em «O Grande Gatsby», pelo contrário, a banda sonora acaba por não funcionar de todo e tem o efeito contrário, provocando até algum efeito de distracção que não é sequer suficiente para esconder o que o filme é: um objecto oco, onde a revisitação da obra de Fitzgerald, mesmo que seja adaptada de forma bastante fiel, é uma pálida versão do original. Numa das sequências, a festa no apartamento de Nova Iorque onde Tom se encontra com a amante, chegamos mesmo a temer começar a ouvir os acordes de «Harlem Shake», um dos fenómenos virais mais recentes.

O resto é puro estilo Luhrmann: muita cor a invadir o ecrã por todos os lados (até percebemos que se pretenda enfatizar esse lado mais excêntrico da personagem de Gatsby e das suas loucas festas, mas a partir de certa altura começa a enjoar) e pouco se entra dentro das personagens que passam pelo universo da genial obra de Fitzgerald, onde estaria o grande desafio de adaptar um livro destes. E se há livros com personagens interessantes para explorar, logo a começar pela que dá título ao livro, «O Grande Gatsby» é um desses livros. Pena que nem Leonardo DiCaprio, que podia ter sido uma boa escolha para interpretar o papel de Gatsby, consiga uma interpretação à altura de outras que conseguiu recentemente, optando por um estilo demasiado exagerado para dar vida à personagem.

Em suma, se tivéssemos de escolher uma frase para definir «O Grande Gatsby» segundo Baz Luhrmann optaríamos pelo ditado popular «muita parra e pouca uva». Mas preferimos deixar um conselho de amigo: se tiver oportunidade leia o livro, a experiência será muito melhor.

Classificação: 2/5

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Abril com novo líder no top anual do CCOP

Novas mexidas no top anual do Círculo de Críticos Online Portugueses (CCOP), com a entrada de «No», de Pablo Larrain, para o primeiro lugar da lista, destronando o anterior líder da tabela: «A Caça». Em Abril de 2013 os filmes preferidos dos membros do CCOP foram «No», com uma média de 8,43 (em 10), «Fausto», de Aleksandr Sokurov (com uma média de 7,40 em 10), e «Os Amantes Passageiros», o mais recente filme de Pedro Almodóvar (com uma média de 7,25). Destes três filmes, apenas os dois primeiros chegaram ao top anual. Além do filme chileno, que lidera o top, também o vencedor do Leão de Ouro na edição de 2011 do Festival de Cinema de Veneza chegou à tabela principal do CCOP, ocupando agora a nona posição. Os resultados completos do top de Abril do CCOP podem ser consultados aqui.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Um Planeta Solitário, de Julia Loktev (2011)

Com dois anos de atraso, depois de uma passagem pela edição de 2012 do IndieLisboa, chega às salas de cinema portuguesas «Um Planeta Solitário». Nesta segunda obra de Julia Loktev a relação de um jovem casal em viagem pela Geórgia, protagonizado por Hani Furstenberg e Gael García Bernal, é posta em causa depois de um encontro acidental com membros de uma comunidade local. A partir desse estranho incidente, que coloca em risco a vida dos dois sem que o guia que os acompanha possa fazer algo (e também nunca chegamos a saber bem o que se passa, pois a única personagem capaz de entender as intenções do grupo, o próprio guia, não revela o que eles disseram), o comportamento dos dois muda e a cumplicidade da relação deixa de estar presente, como se o par tivesse passado um ponto de não retorno.

«Um Planeta Solitário» parte de uma boa premissa e conta com uma realização competente de uma cineasta praticamente desconhecida, com apenas duas outras obras no currículo, uma das quais também chegou a passar pelo IndieLisboa há uns anos. Mas acaba por falhar quando podia dar um resultado melhor. Apesar da excelente química entre o par protagonista, a que se junta uma outra boa prestação de Bidzina Gujabidze, que interpreta o guia, o filme pouco mais é do que o vaguear das três personagens pelas montanhas georgianas, que custa a arrancar (apesar de muito andarem as personagens do filme), como se Julia Loktev quisesse enfatizar a força da paisagem perante a pequenez daqueles três viajantes. E os próprios dilemas que assolam as personagens, sobretudo a partir do momento em que se dá o tal encontro com os habitantes das montanhas, são pouco explorados quando havia uma enorme margem de manobra para nos mostrarem um pouco mais das personagens.

Por muito que nos fascinem as belas paisagens do Cáucaso filmadas por Julia Loktev, o resultado final acaba por se tornar de certa forma um objecto enfadonho e «Um Planeta Solitário» mais um daqueles filmes que bem podia ter perdido alguns minutos na sala de montagem.

Classificação: 2/5

segunda-feira, 20 de maio de 2013

domingo, 19 de maio de 2013

Photo, de Carlos Saboga (2012)

Casos de argumentistas que arriscam saltar da escrita para a realização não são raros no mundo do Cinema. O mais recente a entrar neste clube é Carlos Saboga, que começou nestas andanças ao assinar o argumento de «O Lugar do Morto», de António-Pedro Vasconcellos, e ultimamente esteve envolvido nos argumentos de dois filmes de cariz histórico: «Mistérios de Lisboa» e «As Linhas de Wellington». «Photo» é um filme completamente diferente destes dois últimos projectos de Raul Ruiz (o segundo acabou por ser terminado pela viúva do cineasta chileno, que faleceu antes do arranque das filmagens), mas a História não deixa de estar presente. Na sua estreia na cadeira de realizador Carlos Saboga conta-nos a história de Elisa (Anna Mouglalis), uma mulher que resolve ir à procura das suas raízes depois de tomar conhecimento da morte da mãe. Essas raízes, recuperadas através de inúmeras fotografias que encontra em casa da mãe, trazem-na a Portugal para tentar descobrir quem foi o seu pai. E é em Portugal que acaba por desenterrar um punhado de fantasmas que estiveram envolvidos na luta contra a ditadura de Salazar, todos com ligações à sua mãe na década de 1970.

Não sendo um grande filme, longe disso, «Photo» consegue ser uma estreia simpática para Carlos Saboga que não se espalha ao conciliar a História com H grande e a pequena história, de algumas das personagens que a viveram, mesmo que a partir do olhar de alguém que vem duplamente de fora: Elisa não só é uma estrangeira a desenterrar fantasmas longe de casa, mas também é alguém mais novo, que não viveu os factos relatados pelos homens que estiveram ligados à sua mãe. Entre ajustes de contas com o passado e diálogos que abordam os dilemas da geração que derrotou a ditadura (são vários os comentários que apontam a uma certa crítica a quem passou da idolatria a Mao a idolatrar ideologias completamente opostas para chegar a cargos políticos - só falta dar-lhes os nomes, mas quem conhece a realidade portuguesa conhecerá sem dúvida alguns exemplos), a primeira obra de Saboga enquanto realizador não desilude, pois não vai mais além do que lhe é pedido. Talvez o seu maior defeito seja essa simplicidade e falta de medo em arriscar ir um pouco mais longe. Não será um filme para ombrear com as grandes fitas portuguesas, mas passa no teste.

Classificação: 3/5

sábado, 18 de maio de 2013

Cenas #1

A Infância de Ivan, de Andrei Tarkovsky

«A Guerra é coisa para adultos» é provavelmente a frase mais vezes repetida em «A Infância de Ivan», uma das primeiras obras da curta carreira de Andrei Tarkovsky, um dos maiores nomes do cinema soviético. Curiosamente este espantoso filme sobre a guerra (e não de guerra) é protagonizado por uma criança órfã que vive durante a II Guerra Mundial e trabalha como espião para as tropas russas. Cheio de cenas marcantes, sobretudo nos sonhos que o jovem protagonista tem ao longo do filme, o encontro entre Ivan e um homem mais velho, que ocorre durante a fuga da criança quando lhe dizem que não o querem na frente para não morrer, é uma das sequências mais fortes de todo o filme. A viver numa casa em ruínas, o homem aguarda o regresso da esposa, morta por um soldado nazi. A sequência termina com o grupo de soldados a levar Ivan de volta, depois deste breve encontro. No final o homem, de novo sozinho, lança uma frase seca de desespero ao nosso encontro, antes de fechar a porta de uma casa que não existe.
Para quem não conhece esta obra-prima, esta está disponível inteira neste link.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Lá Fora #1

A pedido da Sofia Santos, autora do bastante recomendável Girl On Film, fui convidado a escrever um texto sobre uma personagem feminina de um filme no âmbito da iniciativa «Um Filme, Uma Mulher», que arrancou esta semana com a publicação de posts de vários bloggers de Cinema. A minha colaboração para a iniciativa foi publicada hoje e pode ser lida neste link. Espero que gostem da minha humilde participação (já foram publicados textos bem melhores, acreditem) e se não conhecem o blogue da Sofia, é favor adicionar aos favoritos.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Só Precisamos de Amor, de Susanne Bier (2012)

É difícil encontrar nos dias de hoje um filme romântico que não caia nos clichés da lamechice. E «Só Precisamos de Amor» tinha tudo para cair nessa armadilha do género, a começar pelo título. Mas o que nos dá a dinamarquesa Susanne Bier, no filme realizado após «Num Mundo Melhor», o vencedor do Óscar para Melhor Filme Estrangeiro em 2010, é uma comédia romântica bastante sincera sobre uma cabeleireira que sofre de cancro e descobre, na véspera do casamento da filha em Itália, que o marido a trai com uma mulher bastante mais nova. A caminho do aeroporto tem um acidente que envolve o pai do futuro genro e a partir daqui nasce uma relação de amizade entre duas pessoas descontentes com o mundo à sua volta, mas com diferentes perspectivas sobre a vida.

«Só Precisamos de Amor» está a milhas de distância de outros filmes do género estreados recentemente em sala e que mais não fazem do que repetir, até à náusea, clichés e modelos que cansam. E assim de repente lembramo-nos de dois filmes visionados há poucas semanas: «O Grande Dia», de Justin Zackham, cujo elenco recheado de estrelas veteranas acaba por salvá-lo do descalabro, e «Fintar o Amor», de Gabriele Muccino, protagonizado por um Gerald Butler claramente em formato peixe fora de água (o actor está muito melhor em «Assalto à Casa Branca», um filme de acção estreado na semana passada onde um grupo de terroristas toma de assalto a residência oficial do presidente dos EUA). 

Susanne Bier podia optar por contar a história da coitadinha, que sofre de uma doença complicada e ainda tem de aguentar com a traição do marido numa altura em que devia estar mais concentrada em travar a luta contra o cancro e apoiar a filha no momento mais feliz da sua vida. Mas não o faz, preferindo contar a história de uma forma em que nada parece forçado, apesar de o primeiro encontro entre o par protagonista (composto por dois actores que se complementam na perfeição: Trine Dyrholm e Pierce Brosnan) poder indicar que estamos prestes a entrar no perigoso mundo das comédias românticas cheias de lugares comuns. É esta a única vez em que tememos pelo regresso de Bier após o sucesso alcançado com o seu filme anterior, pois tudo o resto acaba por ser uma agradável surpresa, mesmo que este não seja o género favorito por estes lados. Mas quando nos surpreendem, como aconteceu com «Só Precisamos de Amor», acabamos por gostar.

Classificação: 3/5

domingo, 12 de maio de 2013

Adivinhem quem voltou


Depois de alguns meses de interregno enquanto revista on-line, apesar de continuar bastante activa no Facebook, a Take está de volta, com um design renovado e uma aposta em edições temáticas. A primeira destas edições já está on-line e é dedicada ao Festival de Cannes, que arranca dentro de dias e vai concentrar a atenção dos cinéfilos de todo o mundo. Além de artigos especiais sobre o certame, incluindo uma antevisão dos principais filmes que vão passar pela Croisette em 2013, esta edição da Take conta ainda com um conjunto de 15 críticas a alguns dos vencedores da Palma de Ouro, escritas pelos membros do Círculo de Críticos Online Portugueses (CCOP). Motivos mais do que suficientes para celebrar o regresso da Take em formato revista.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Transe, de Danny Boyle (2013)

Depois do brilharete alcançado na cerimónia de abertura da última edição dos Jogos Olímpicos, realizada em Londres no ano passado, Danny Boyle está de regresso aos filmes com algo mais negro do que o espírito das Olimpíadas. «Transe» é também o filme do realizador britânico posterior à aclamação obtida por «127 Horas» e «Quem Quer Ser Bilionário?», obras que o levaram a conquistar inúmeros óscares e nomeações aos prémios da Academia. Mas o lado mais humano destes anteriores filmes e dos Jogos Olímpicos fica de fora de «Transe» onde entramos, literalmente, dentro dos meandros mais escuros da mente humana. O protagonista é Simon (James McAvoy), o funcionário de uma leiloeira envolvido no roubo de um valioso quadro durante um leilão. O assalto corre de feição até que os cúmplices de Simon descobrem que afinal apenas têm nas mãos uma moldura sem tela. Para tentarem reaver o quadro vão atrás do funcionário da leiloeira, que entretanto ficara amnésico por ter levado uma pancada na cabeça. Será com a ajuda de uma hipnoterapeuta, contratada para entrar dentro da mente de Simon, que os criminosos vão tentar reaver o objecto roubado.

Contar mais pormenores sobre a trama de «Transe» é complicado, pois este é um daqueles filmes em que quanto menos se souber antes de entrarmos na sala, melhor. São tantas as reviravoltas e entradas e saídas de dentro da cabeça de Simon ao longo do filme que fazer spoilers é estragar toda a experiência de ver o filme. E se esta confusão, com inúmeras reviravoltas a acontecerem ao mesmo tempo, sobretudo na segunda metade do filme, quando o novelo se começa a desenrolar, podia funcionar contra «Transe», a verdade é que Danny Boyle dá conta do recado, não deixando pontas soltas.

O problema é que acaba por ter um final bastante fraco tendo em conta o material que tinha em mãos, dando a sensação que «Transe» fica bastante perto de ser um grande filme (e isso acaba por acontecer por diversas vezes ao longo do filme), mas acaba por ficar a meio caminho. É uma obra interessante a espaços, quase como que uma revisitação do filme Noir para os tempos modernos por parte do cineasta britânico (e esta não é a primeira vez que Boyle explora diferentes géneros, como aconteceu, por exemplo, com a ficção científica em «Missão Solar» ou o terror em «28 Dias Depois»), com Boyle a aproveitar a sua maneira de filmar para a adaptar ao género (e com bons resultados), mas que apenas peca por falhar na recta final, desperdiçando uma boa história com um final com muito pouco sal.

Classificação: 3/5

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Saul Bass regressa...por um dia

Já não é novidade a presença de doodles animados (versões personalizadas do logótipo do motor de busca Google para comemorar uma determinada data ou aniversário de uma personalidade) criados pela Google para dar uma outra imagem ao motor de busca da empresa. Volta a meia o homenageado vem do mundo do cinema (ainda há dias a versão indiana do motor de busca foi agraciada com o doodle de homenagem a Satyajit Ray, a propósito do 92º aniversário do realizador de origem indiana) e é o que acontece hoje, com um magnífico doodle dedicado a Saul Bass, designer gráfico que criou alguns dos mais brilhantes genéricos de filmes, nomeadamente para «Vertigo - A Mulher Que Viveu Duas Vezes» ou «Intriga Internacional», ambos de Alfred Hitchcock e presentes nesta singela homenagem onde a gigante norte-americana substituiu o habitual logótipo do motor de busca por um pequeno vídeo animado com a recriação de vários genéricos criados por Bass. A única diferença é que em lugar do título de filmes como os já citados ou «Anatomia de Um Crime», por exemplo, surge o nome da empresa. Tudo para homenagear um dos mestres dos genéricos, que faria hoje 93 anos se fosse vivo. O resultado final pode ser visto no vídeo abaixo.


segunda-feira, 6 de maio de 2013

Não, de Pablo Larraín (2012)

Ao quarto filme o chileno Pablo Larraín volta a dar provas de ser um dos cineastas actuais a ter debaixo de olho. Se «Tony Manero» e «Post Mortem» já tinham sido obras bastante recomendáveis, sobretudo a primeira, o talento de Larraín explodiu no ano passado com «Não», um filme sobre a campanha política que afastou Pinochet do Governo no Chile e abriu as portas à democracia naquele país, depois de 15 anos de ditadura militar. Além de ser um excelente estudo sobre os meandros da propaganda política na década de 1980, «Não» é um retrato dos últimos dias de um regime, através do olhar de um publicitário que a princípio não quer estar ligado a questões políticas, mas acaba por se ver envolvido no olho do furacão ao tomar as rédeas de uma campanha destinada a defender o voto no Não num referendo criado pelo governo chileno para legitimar o poder de Pinochet.

Candidato chileno na última edição dos Óscares ao galardão de Melhor Filme Estrangeiro (acabaria por perder para «Amor», de Michael Haneke), «Não» podia ficar-se pelo simples retrato histórico de uma época. E a utilização de uma fotografia que faz lembrar o vídeo (efeito que vimos recentemente num outro filme completamente diferente: «Computer Chess», de Andrew Bujalski) está lá para isso, para nos relembrar que o filme 'é' daquela época. Mas não, vai muito mais além do simples retrato histórico. Não é só a representação do que aconteceu de ambos os lados da campanha, com especial enfoque na campanha de oposição à ditadura militar chilena que pensava estar a defender uma causa perdida à partida. Há todo um universo paralelo que volta a ser explorado por Pablo Larraín, tal como fizera nos seus filmes anteriores, que lhe deram fama.

Neste caso «Não» parte da campanha para nos mostrar o que se passava no Chile naquela altura e é curiosa a relação entre o protagonista René (Gael Garcia Bernal) e Lucho (Alfredo Castro, habitual colaborador de Larraín com mais uma excelente interpretação, apesar de não ser o protagonista, como acontecera nos dois filmes anteriores do realizador), o chefe da agência publicitária para quem o jovem trabalha e que acaba por ter um papel de relevo na campanha do Sim devido às suas relações com o governo de Pinochet. É esta relação que acaba por ser a outra face do filme e que vai culminar numa sequência final, também ela bastante curiosa e que faz espelho com a abertura, em que ambos apresentam uma nova campanha publicitária e um deles diz «agora o Chile já está preparado para uma coisa destas», algo que não acontecia na primeira campanha a um refrigerante, onde a presença de um mimo, um elemento de certa forma alegre, era bastante criticada. E o olhar desencantado de René antes de entrar o genérico final (o olhar de alguém desiludido, ficamos com essa sensação) é de uma força tremenda, dando a «Não» uma nova panóplia de leituras até então escondidas com o rabo de fora.

Classificação: 4/5

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Duetos Cinéfilos #11


Música: Belarmino (Linda Martini)
Filme: Belarmino (Fernando Lopes)

A propósito do arranque de mais uma edição do festival Panorama - Mostra do Documentário Português, que arranca amanhã no Cinema São Jorge com a projecção de «Belarmino», em homenagem a Fernando Lopes, numa sessão especial que vai contar com a actuação ao vivo do Trio Hot Club Portugal, que participou no filme, em 1964.

terça-feira, 30 de abril de 2013

IndieLisboa 2013: O Bom, o Mau e o Vilão

Para terminar o acompanhamento de mais um IndieLisboa, desta vez com cobertura alargada aqui no blogue, fica um post com o melhor, o pior e o péssimo da última edição do festival. Não podia deixar de agradecer à organização pela atribuição de uma acreditação ao blogue, o que me permitiu assistir a um maior número de sessões e assim fazer uma cobertura diária do IndieLisboa com posts sobre os filmes visionados ao longo do festival.

O Bom: Ao contrário do que aconteceu noutras edições do IndieLisboa, este ano não houve nenhum filme que tenha considerado excepcional. Mesmo assim encontrei alguns filmes que gostei bastante e foram poucas as desilusões. Do conjunto de filmes visionados durante os últimos dias destaco cinco (que serviram de base a um top publicado num post de balanço do IndieLisboa do CINEdrio, do Luís Mendonça, um dos bloggers que acompanhou de perto o festival e pediu a vários bloggers uma lista com as suas escolhas para fazer um top 5 da blogosfera cinéfila): «Museum Hours», de Jem Cohen, «The Act of Killing», de Joshua Oppenheimer, «Leviathan», de Lucien Castaing-Taylor e Véréna Paravel, «Gimme the Loot», de Adam Leon e «Starlet» de Sean Baker. E uma menção honrosa: a curta-metragem «O Facínora», de Paulo Abreu.


O Mau: Seguindo a mesma lógica, há que dar espaço ao que de pior vi pelo IndieLisboa este ano. Tirando algumas desilusões, como o regresso fraco da dupla Gustave de Kervern e Benoît Delépine («Le Grand Soir») ou o sobrevalorizado «A Batalha de Tabatô», de João Viana, o lote de filmes que vamos colocar na lista de 'filmes que mais valia termos trocado por outra sessão à mesma hora' é o seguinte: «The First Winter», de Ryan McKenna, «Animal Love», de Ulrich Seidl, «Doméstica», de Gabriel Mascaro, «Ape», de  Joel Potrykus, e «Not In Tel Aviv», de Nony Geffen.

O Vilão: Quem está habituado a ir ao cinema habituou-se (infelizmente) a ter de aturar comportamentos que roçam a má educação. Também no IndieLisboa há público que não sabe estar numa sala de espectáculos. Apesar de em anos anteriores ter sido pior, este ano continuamos a encontrar pessoas que comentam os filmes entre si como se estivessem em casa a ver a novela, sem se preocuparem com o facto de que algumas das pessoas presentes na sala estão ali para ver um filme. Este ano ainda assisti a uma situação quase surreal de troca de cadeiras por parte de tantos espectadores numa das sessões que me questionei se não teriam organizado um jogo das cadeiras e me esqueceram de avisar. Faz lembrar os festivais de verão onde a maior parte do público está lá 'para o convívio' e nem sequer se importa em saber quem é o artista que está no palco, desrespeitando não só o próprio artista, mas sobretudo quem veio assistir ao espectáculo. Em suma: o público dá prémios, mas não merece prémio. Haja paciência.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

IndieLisboa 2013, Dia 11: Dores de crescimento

O último dia de IndieLisboa em 2013 acabou em grande, mas com mais uma pequena desilusão: «Frances Ha», de Noah Baumbach, cujas expectativas estavam tão em alta que acabou por desiludir um pouco. Antes houve tempo para conhecer a história de Yang Ja, no documentário «When Night Falls», de Liang Ying. O festival terminou com «Starlet», um filme belo e simples de Sean Baker, um dos repetentes do IndieLisboa.


A pena de morte foi o tema de um dos momentos fortes do IndieLisboa (as duas sessões dedicadas a «Death Row», o projecto televisivo de Werner Herzog sobre a pena capital nos EUA) e é o pano de fundo da história de Yang Jia, um jovem chinês condenado à morte em 2008, ano em que Pequim recebeu as Olimpíadas. «When Night Falls» recupera o processo pouco claro que levou à condenação do jovem através do olhar da mãe, com o recurso a sequências encenadas, pois as únicas imagens relativas ao julgamento e ao crime cometido por Yang Ja são fotografias que surgem no início do filme para contextualizar a história com a ajuda de legendas e uma voz off.

Filme de denúncia, «When Night Falls» é mais um retrato de uma justiça cega num país onde os direitos humanos são desrespeitados. O caso de Yang Jia dá conta de um processo onde o jovem poucas hipóteses teve para se defender e evitar a condenação à morte, segundo nos relata o documentário, que contou com o aval da mãe de Yang Jia e utilizou como fontes alguns dos textos de Yang Jia e do activista Ai Wei Wei, publicados na Internet, um dos principais palcos de contestação às políticas chinesas, mesmo que seja altamente controlada pelas autoridades. E por várias vezes o filme refere que os principais apoiantes da causa da mãe do condenado são precisamente estes ciber-activistas.

Apesar de alguns aspectos interessantes, sobretudo na forma como Liang Ying utiliza as imagens oficiais no início do filme para fazer o contexto do processo, «When Night Falls» acaba por perder alguma força à medida que vai avançando e as sequências encenadas não acrescentam muito mais à história. Funciona como retrato do que pretende denunciar, mas talvez tenha sido demasiado longo para as suas intenções finais.

Classificação: 3/5


(com spoilers)
Aguardar um filme com as expectativas demasiado em alta pode ser uma chatice. Foi o que aconteceu com «Frances Ha», um daqueles filmes que queremos tanto gostar e depois acabamos por gostar assim assim. Não que o mais recente filme de Noah Baumbach seja um mau filme, longe disso. A culpa de não termos gostado tanto como queríamos foi da expectativa criada em torno da história de Frances (Greta Gerwig), uma jovem de 27 anos a atravessar um período complicado em que todos à sua volta começam a assentar, menos ela, que continua a viver no seu universo e aparentemente não quer crescer. Não é propriamente a jovem que era quando conheceu a sua melhor amiga na universidade, com quem partilha apartamento no início do filme, mas também ainda não é a adulta 'responsável' que todos acham que já devia ser. A eterna 'encalhada', como a define um dos amigos.

O que move Frances são os seus sonhos, de ser uma bailarina bem sucedida, continuar a viver com os amigos e a fazer o que lhe apetece como sempre fez (ela não é desarrumada, é ocupada, como gosta de sublinhar ao longo do filme sempre que é criticada por não arrumar o quarto), até ao momento em que todos deixam de ser assim, em prol de uma realidade mais 'sólida', mas que ao mesmo tempo apenas é atingível se abdicarem de parte de si. E o exemplo da melhor amiga de Frances é paradigmático disso mesmo. Mas Frances não faz parte desse universo e de certa forma consegue fugir desse destino, pois apesar de eventualmente atingir o sucesso continua a ser igual a si própria no final do filme, a jovem desenrascada que arranja solução para tudo.

É fácil gostar de «Frances Ha» e apaixonar-mo-nos pela criação de Gerwig, que além de interpretar a personagem principal assinou o argumento em conjunto com Baumbach. Tem uma protagonista fantástica (Frances), Nova Iorque fotografada magnificamente a preto e branco e uma música de David Bowie que acabou por se tornar a banda sonora oficial do último dia do IndieLisboa. Mas no final ficamos com uma ligeira sensação de desilusão. Apenas porque queríamos mesmo gostar (mesmo) muito de «Frances Ha».

Classificação: 4/5


Para terminar esta edição do IndieLisboa arriscamos um outro nome conhecido. Tal como no primeiro filme optámos por começar com dois velhos amigos conhecidos no festival lisboeta (a dupla Gustave de Kervern e Benoît Delépine) o último filme ficou reservado para o regresso de um nome que já andou pelo IndieLisboa: Sean Baker, cujo anterior «Prince of Broadway» esteve presente na Competição Internacional na edição de 2009. Na altura este simpático filme, sobre um imigrante ilegal em Nova Iorque que não sabe o que fazer quando de repente se vê a tomar conta de um filho de dois anos cuja existência desconhecia, foi suficiente para que o nome de Sean Baker nos ficar retido na memória.

Em «Starlet» as ruas de Nova Iorque são trocadas pelo sol da Califórnia, o estado onde decorre a acção do filme que relata a história de Jane (Dree Hemingway), uma jovem que se torna amiga de Sadie (Besedka Johnson) depois de esta pouco simpática senhora idosa lhe vender um termo em segunda mão, termo esse que esconde uma quantia generosa de dinheiro. Aos poucos a relação improvável entre as duas vai crescendo e Sadie encontra em Jane uma companheira com quem partilha os seus segredos depois de uma desconfiança inicial, ao mesmo tempo que Jane encontra em Sadie uma nova amiga, que nada tem a ver com o casal com quem partilha casa.

«Starlet» volta a não ser a obra-prima do IndieLisboa (apesar de este ano ter gostado de muitos dos filmes visionados, nenhum conseguiu atingir o estatuto de excepcional), mas conseguiu ser uma agradável surpresa na recta final do festival. Um filme belo e simples, que não vai além do que aquilo que é suposto ser e sem qualquer pretensiosismo, factor que por vezes acaba por jogar contra este tipo de obras. E coloca Sean Baker no lote de nomes a seguir em futuras edições do festival.

Classificação: 4/5

domingo, 28 de abril de 2013

IndieLisboa 2013, Dia 10: Um dia no Museu

No penúltimo dia de IndieLisboa houve espaço para um pouco de tudo: uma competente primeira obra vinda do Brasil («Eles Voltam», de Marcelo Lordello), um documentário sobre um dos maiores segredos da história nuclear da ex-União Soviética («Metamorphosen», de Sebastian Mez), uma bela obra com o museu de História de Arte de Viena em pano de fundo («Museum Hours», de Jem Cohen) e uma comédia surreal sobre a procura de amor («Not in Tel Aviv», de Nony Geffen).


Tal como uma equipa de futebol é composta por 11 elementos, 11 foram os filmes que vieram representar o Brasil na edição deste ano do IndieLisboa. Depois do fraco documentário «Doméstica» resolvemos arriscar «Eles Voltam», a longa-metragem de estreia de Marcelo Lordello que levou para casa o prémio de distribuição do festival e poderá eventualmente vir a estrear comercialmente em Portugal. Mesmo não sendo o melhor filme visto nos últimos dias (outros filmes que passaram pelo Indie mereciam estreia comercial e muito provavelmente não terão), a primeira obra de Marcelo Lordello é uma competente estreia.

Girando em torno de Cris (Maria Luiza Tavares), uma adolescente que é abandonada pelos pais à beira de uma estrada perdida no Interior do Brasil, «Eles Voltam» é outro retrato do Brasil através do olhar de uma jovem. Neste caso uma jovem que é abandonada (nunca chegamos a saber a razão que levou os pais de Cris a abandonarem a jovem e o seu irmão mais velho, que acaba mais tarde por abandoná-la também quando parte à procura de ajuda) e acaba por ser ajudada por uma família de origens mais modestas. Esta experiência vai ser fundamental para a adolescente se aperceber de uma outra realidade, bem diferente da sua (basta comparar a casa da família que a acolhe e a sua própria casa), e mudar a sua percepção do mundo à sua volta.

É verdade que «Eles Voltam» podia ir um pouco mais longe e aprofundar melhor uma questão como as divisões sociais numa sociedade bastante desigual (vêm-nos de novo à memória, por exemplo, alguns dos retratos apresentados em «Doméstica») e se o filme fosse um pouco mais curto não se perdia muito. Não fosse esta falta de vontade em aprofundar o tema que pretende explorar e o filme de Marcelo Lordello poderia ter sido uma boa surpresa. Assim acaba por ser mais um filme mediano a passar pelo Indie.

Classificação: 3/5


Algumas das boas surpresas que encontrámos no IndieLisboa em 2013 vieram do universo documental. Não estando à altura de objectos como «The Act of Killing» ou «Leviathan», «Metamorphosen», do mexicano Sebastian Mez, é o retrato de um dos maiores segredos da história nuclear da ex-União Soviética e não pelas melhores razões. Situada na região sul da Rússia a central nuclear de Mayak foi o palco de uma das maiores catástrofes nucleares da história da Humanidade, comparada aos acidentes de Chernobyl e Fukushima, mas que esteve afastada do conhecimento público durante mais de três décadas. Mais recentemente a mesma central, que ainda se encontra em funcionamento, esteve à beira de uma nova catástrofe, relatada por um dos intervenientes no final do filme.

Ao longo de pouco menos de uma hora e meia a câmara de Sebastian Mez mostra-nos os efeitos do acidente original na região, através de relatos da população que continuou a viver na zona afectada, alguns dos quais ainda hoje sofrem das consequências da exposição a níveis de radiação surpreendentes. Filmado a preto e branco, que dá uma força enorme às imagens das paisagens desoladoras da região, «Metamorphosen» é um filme simples, que não vai além daquilo que pretende mostrar: os malefícios do nuclear e os perigos representados por um tipo de energia que pode ter efeitos devastadores em caso de acidente. Tal como no caso de «Eles Voltam», falta um pouco mais para este ser um bom filme, que acaba por ter o mérito de mostrar ao mundo um caso praticamente desconhecido.

Classificação: 3/5


O melhor do dia (e um dos melhores momentos do festival)  ficou reservado para uma pequena pérola chamada «Museum Hours», de Jem Cohen, este sim um daqueles filmes que merecia distribuição comercial. Mas como a distribuição portuguesa é uma daquelas 'ciências' inexplicáveis, «Museum Hours» vai ser mais um daqueles filmes que vimos em contexto de festival e muito provavelmente vamos perder-lhe o rasto. Mas felizardos os que tiveram oportunidade de assistir às três passagens no IndieLisboa, a última das quais numa sessão esgotada cujo início mais parecia uma versão do jogo das cadeiras, tal o número de pessoas que se levantaram e mudaram de lugar durante a projecção. Infelizmente ver pessoas que não sabem estar numa sala de Cinema é uma realidade cada vez mais comum e o por incrível que pareça o IndieLisboa costuma ser palco deste tipo de atitudes, que apenas se compreenderão se especularmos que estes espectadores só entram numa sala de Cinema em ocasiões especiais, como é o caso dos festivais de Cinema.

Desabafos à parte, vamos ao que interessa. Olhando apenas para o título, «Museum Hours» poderia indicar que estamos perante um daqueles filmes chatos, passado num museu onde nada se passa e o silêncio é rei. Mas não poderíamos estar mais equivocados, pois o filme de Jem Cohen vai muito para além da história de um simples segurança de museu vienense que percorre os corredores e se habituou a (re)descobrir o que se passa nos seus quadros. Durante estes seus 'passeios' Johann (Bobby Sommer) vai reflectindo, através de monólogos interiores que partilha connosco, sobre a arte e os mais variados aspectos a partir dos quadros que tem à sua guarda. A chegada de uma visitante estrangeira, que vem a Viena para visitar uma familiar hospitalizada, acaba por influenciar os seus passeios, que de repente passam também a incluir as ruas da capital austríaca que mostra à sua nova amiga, que encontrou um dia no museu.

Tão simples quanto isto, «Museum Hours» é um daqueles filmes que não nos quer ensinar nada, nem sequer nos impõe uma qualquer resposta para o que estamos a ver. Tal como às tantas a guia presente numa das sequências responde a um dos visitantes, que discorda das suas opiniões, aquela é a sua visão e qualquer um pode ter a sua. A que vemos em «Museum Hours» é a de Johann e é essa que nos guia ao longo do filme, onde cabe tudo um pouco, incluindo um belíssimo final onde o protagonista descreve de forma fabulosa uma cena do quotidiano como se estivesse a descrever um quadro, tal e qual como a gravação de um audio-guia. Se houve filme na presente edição do IndieLisboa pelo qual nos deixámos ir, «Museum Hours» foi sem dúvida alguma esse filme.

Classificação: 4/5


«Not in Tel Aviv» foi o filme escolhido para terminar o penúltimo dia de IndieLisboa. Comédia surreal israelita, o filme realizado por Nony Geffen foi um dos objectos mais estranhos a passar pela edição deste ano do festival e um daqueles que se gosta ou odeia. Protagonizado por Mischa (interpretado pelo realizador, que também assina o argumento), «Not in Tel Aviv» é a história de um jovem professor que é despedido na cena inicial e resolve raptar uma das alunas. A partir daqui entramos numa estranha descida aos infernos que mais não é do que a procura do amor por parte de Mischa, uma personagem tão confusa como nos pareceu todo o filme, que nos faz lembrar as comédias independentes norte-americanas (nem falta a fotografia a preto e branco), mas numa variante surrealista. Tem alguns pormenores curiosos e bem conseguidos, incluindo uma boa banda sonora, bastante simpática, mas pouco mais do que isso. Uma enorme desilusão depois do anterior «Museum Hours».

Classificação: 2/5

sábado, 27 de abril de 2013

IndieLisboa 2013: os vencedores


Foram hoje anunciados os vencedores da edição de 2013 do IndieLisboa. Sem grandes surpresas os filmes «Lacrau», de João Vladimiro, e «Leviathan», de Lucien Castaing-Taylor e Véréna Paravel, conquistaram os principais prémios do festival: Melhor Longa Metragem Portuguesa e Grande Prémio de Longa Metragem Cidade de Lisboa, respectivamente. «Lacrau» venceu ainda o Prémio Árvore da Vida para Filme Português. O prémio do público para melhor longa metragem foi atribuído a «Amsterdam Stories USA», de Rob Rombout e Rogier Van Eck. No campo das curta-metragens os principais vencedores foram «Da Vinci», de Yuri Ancarani (Grande Prémio de Curta Metragem), «Gingers», de António da Silva (Melhor Curta Metragem Portuguesa) e «Le Libraire de Belfast», de Alessandra Celesia (Prémio do Público).

A lista completa dos vencedores é a seguinte:

Grande Prémio de Longa Metragem Cidade de Lisboa
Leviathan, de Lucien Castaing-Taylor e Véréna Paravel (Reino Unido, E.U.A., França)

Prémio de Distribuição TVCine
Eles Voltam, de Marcelo Lordello (Brasil)

Prémio Digimaster para Melhor Longa Metragem Portuguesa
Lacrau, de João Vladimiro (Portugal)

Grande Prémio de Curta Metragem
Da Vinci, de Yuri Ancarani (Itália)
Menções Honrosas
Animação: Comme des Lapins (Chroniques da la Poisse, chap. 2), de Osman Cerfon (França)
Documentário: Resistente, de Renate Costa Perdomo e Salla Sorri (Dinamarca, Finlândia, Paraguai)
Ficção: Noelia, de María Alché (Argentina), e El Ruido de las Estrellas me Aturde, de Eduardo Williams (Argentina)

Prémio Pixel Bunker para Melhor Curta Metragem Portuguesa
Gingers, de António da Silva (Reino Unido, Portugal)
Menção Honrosa
Má Raça, de André Santos e Marco Leão (Portugal)

Prémio Novo Talento FNAC
Má Raça, de André Santos e Marco Leão (Portugal)

Prémio Novíssimos
Outro Homem Qualquer, de Luís Soares (Portugal)

Prémio Culturgest Pulsar do Mundo
La Chica del Sur, de José Luis García (Argentina)
Menção Honrosa
Donauspital - SMZ Ost, de Nikolaus Geyrhalter (Áustria)

Prémio Amnistia Internacional
The Act of Killing, deJoshua Oppenheimer (Dinamarca)
Menção Honrosa
The Devil, de Jean-Gabriel Périot (França)

Prémio Árvore da Vida para Filme Português
Lacrau, de João Vladimiro (Portugal)
Menção Honrosa
Rhoma Acans, de Leonor Teles (Portugal)

Prémio TAP para Longa Metragem Portuguesa de Ficção
É o Amor, de João Canijo (Portugal)

Prémio TAP para Documentário Português
Torres & Cometas, de Gonçalo Tocha (Portugal)

Prémio do Público
Longa Metragem
Amsterdam Stories USA, de Rob Rombout e Rogier Van Eck (Bélgica)
Curta Metragem
Le Libraire de Belfast, de Alessandra Celesia (Reino Unido, França, Irlanda)
IndieJúnior
De Club van Lelijke Kinderen/O Clube das Crianças Feias, de Jonathan Elbers (Holanda)

IndieLisboa 2013, Dia 9: Geeks ao poder

O nono dia de IndieLisboa trouxe algumas desilusões («A Batalha de Tabatô», de João Viana, e «Ape», de Joel Potrykus) e uma boa comédia indie que recupera o espírito geek da década de 1980 («Computer Chess», de Andrew Bujalski).


Praticamente chegado de Berlim, onde recebeu uma menção especial naquele que é um dos principais festivais de cinema do mundo, «A Batalha de Tabatô» era à partida mais um dos filmes obrigatórios do IndieLisboa este ano. Estreia de João Viana nas longas metragens, o filme relata a chegada de um homem à Guiné Bissau para assistir ao casamento da filha e que aos poucos começa a reviver o seu passado de guerra colonial que o fez abandonar o país. Filmado a preto e branco, com excepção de algumas sequências onde a guerra é representada em tons de vermelho, «A Batalha de Tabatô» é um filme onde os fantasmas do passado e do presente andam lado a lado e procuram uma certa reconciliação que acaba por chegar através da música, na aldeia remota de Tabatô, onde decorre parte da acção.

Talvez o facto de «A Batalha de Tabatô» ter chegado ao festival com uma aura de filme especial tenha elevado demasiado as expectativas em relação ao filme. A verdade é que não há nenhum rasgo que o torne um dos grandes filmes que passaram pelo IndieLisboa este ano. Antes um objecto curioso que continua a desbravar territórios como os de «Tabu», de Miguel Gomes, que nos levou a olhar de novo para África, mas com menos sucesso. Neste caso João Viana não conta uma história de amor protagonizada pelos colonos, antes uma história alicerçada na cultura local, como que um regresso às origens, num conto pacifista em que defende as tradições locais, destruídas com a colonização. Tem alguns bons pormenores, é certo, mas ao mesmo tempo as suas fragilidades saltam à vista, em grande parte graças a interpretações demasiado simples, que acabam por se tornar o pior aspecto do filme.

Classificação: 3/5


Completamente diferente é o universo de «Computer Chess». Passado num fim de semana da década de 1980, o mais recente filme de Andrew Bujalski tem como cenário um torneio onde várias equipas de informáticos apresentam os seus programas de xadrez mais recentes. O objectivo é descobrir qual o melhor programa de xadrez em competição, através de várias partidas onde as máquinas se defrontam entre si, sendo que além do prémio final o vencedor irá ter a oportunidade de defrontar um jogador humano, como tem acontecido nas anteriores edições do torneio anual. Desta vez os computadores estão mais evoluídos e não se sabe se pela primeira vez as máquinas vão conseguir bater o homem ou não.

Povoado pelas mais estranhas personagens, entre as quais um grupo de auto-ajuda que escolheu o mesmo hotel para se reunir naquele fim de semana, «Computer Chess» é a comédia geek por excelência e dificilmente terá rival à altura neste campo. Todo o universo dos programadores informáticos daquela época é recriado magistralmente por Andrew Bujalski, não só na forma como o filme nos é apresentado (a preto e branco e em vídeo), mas também nos delirantes diálogos entre as personagens, que vivem apenas para aquilo que fazem. As rivalidades, a presença de um estranho programador independente, aparentemente não tão geek como os outros concorrentes, e o destaque dado à primeira mulher a participar no torneio (a grande curiosidade daquela edição do torneio, sempre a ser destacada pelo apresentador), está tudo lá para nos mostrar o maravilhoso mundo da programação informática nos seus primórdios. Continua a não ser uma obra-prima que vamos levar do Indie em 2013, mas de certeza que vai ser uma das boas recordações que vamos levar do festival este ano.

Classificação: 4/5


Continuando nos EUA, o nono dia de IndieLisboa terminou com «Ape», uma comédia negra sobre um jovem comediante sem sucesso, que tem mais jeito para atear fogos do que para contar piadas. A obra de estreia de Joel Potrykus, também ele um ex-comediante sem sucesso, pertence ao mesmo universo de «The First Winter»: um filme completamente independente, feito por amigos através de uma produtora própria. E, tal como o filme canadiano, não vive para as expectativas, mesmo sendo um filme um pouco melhor. Por muito que se esforce o actor principal, Joshua Burge, que encarna na perfeição o comediante pirómano azarado, «Ape» foi um dos filmes mais fracos a passar pelo festival. Mas não deixa de ser a prova de que quando um grupo de amigos se junta para fazer um filme (rodado ao longo de três meses, durante fins de semana e folgas de todos os envolvidos, e com um orçamento baixíssimo - 2 mil dólares, mais algum dinheiro para pós-produção -, segundo explicou o produtor no final da sessão) consegue fazê-lo. Mesmo que o resultado não seja bom, tem esse mérito de manter o espírito indie.

Classificação: 2/5

sexta-feira, 26 de abril de 2013

IndieLisboa 2013, Dia 8: Amor, Morte e Sexo

Depois de um dia mais fraco, o oitavo dia de IndieLisboa foi de emoções fortes: uma história sobre a descoberta do amor («Ma Belle Gosse», de Shalimar Preuss), uma descida aos infernos na Indonésia («Act of Killing», de Joshua Oppenheimer) e as aventuras sexuais de uma mulher europeia à procura de amor numas férias no Quénia («Paradise: Love», de Ulrich Seidl).


«Ma Belle Gosse», um dos filmes presentes na competição internacional do IndieLisboa, marca a estreia de Shalimar Preuss na realização de longas metragens. É um filme sobre a descoberta do amor por parte de uma adolescente de 17 anos que mantém uma relação epistolar com um homem mais velho que se encontra preso. A acção decorre durante umas férias em família e a jovem Maden tenta a todo o custo esconder essa relação, que acaba eventualmente por ser descoberta pelas suas primas. Filmado sempre com a câmara à mão, seguimos a jovem e os seus companheiros de férias como se fossemos um deles, com especial foco na jovem protagonista e num dos seus primos, com quem partilha o segredo no início.

Ao contrário de algumas propostas mais arriscadas que costumam aparecer na competição oficial do festival, «Ma Belle Gosse» é uma antítese desse tipo de obras, tal a simplicidade com que Shalimar Preuss filma a história de Maden. E é essa simplicidade e falta de capacidade para arriscar que acaba por jogar contra o filme, que aos poucos se torna pouco mais do que algo banal, que vemos sem pensar muito no que estamos a ver. Precisava de um pouco mais de garra para nos cativar e tornar «Ma Belle Gosse» uma estreia mais auspiciosa, apesar de ser bastante competente no que pretende ser.

Classificação: 3/5


De uma história de amor, passamos para uma história de terror: o documentário «The Act of Killing», de Joshua Oppenheimer, um dos filmes mais difíceis de digerir nesta edição do IndieLisboa. Estávamos preparados para um filme forte, mas não estávamos de todo preparados para o que iria passar pelo grande ecrã durante as duas horas e meia de duração do documentário, que se debruça sobre o massacre dos comunistas na Indonésia nos anos 1965-1966, massacre esse que vitimou mais de um milhão de pessoas cujos autores continuam sem ser responsabilizados. Estes acontecimentos são relatados por vários dos responsáveis pelos massacres, entre os quais Anwar Congo, 'personagem' principal de «The Act of Killing», que na altura passou de pequeno criminoso local (cuja principal actividade era a venda de bilhetes de cinema na candonga) a um dos principais carrascos e responsável por um esquadrão da morte que matou um número indeterminado de pessoas com a cumplicidade das autoridades oficiais.

Ao longo do filme acompanhamos Anwar Congo e alguns dos seus companheiros da altura, alguns dos quais acabaram por se tornar homens de negócios bem sucedidos e governadores, todos com estatuto de heróis nacionais, na recriação dos acontecimentos que levaram ao massacre de mais de um milhão de pessoas. Para a execução desta recriação o realizador do documentário deu luz verde aos protagonistas para encenarem os acontecimentos como bem entendessem. E o resultado é uma espécie de making of dessas cenas para um suposto filme, cujas sequências acabam por ser mais chocantes do que as horríveis descrições que os protagonistas de «The Act of Killing» fazem dos seus actos ao longo do filme, pois roçam um certo surrealismo. Como o facto de numa dessas sequências um actual ministro indonésio participar na direcção da cena, como se fosse um realizador de cinema.

Apesar de toda a glorificação das suas acções no filme dentro do filme, o comportamento de Anwar Congo vai mudando um pouco ao longo de «The Act of Killing». Começando como um fanfarrão, que se gaba do que fez e como o fazia com total impunidade, e acabando como alguém com enormes sentimentos de culpa que se vai apercebendo de tudo o que fez à medida que recria os acontecimentos. Esse reconhecimento culmina numa das cenas mais difíceis de digerir em «The Act of Killing», quando o protagonista regressa ao terraço de casa, onde anteriormente já tinha exemplificado um dos métodos que utilizava para matar as vítimas. Mas o mal já estava feito e por mais fantasmas que o visitem à noite, os seus actos continuam impunes.

Mesmo sendo um dos melhores filmes passados nesta edição do IndieLisboa, o documentário de Joshua Oppenheimer não é fácil de se ver e prova como a banalização do mal consegue atingir níveis impensáveis. O facto de grande parte da ficha técnica do filme contar com inúmeros elementos anónimos denota que o tema, mesmo passados tantos anos, continua a ser polémico na Indonésia, onde os familiares das vítimas sabem que nada podem fazer contra os carrascos, que continuam protegidos pelas autoridades e ainda gozam com a simples possibilidade de um dia poderem vir a ser julgados em tribunais internacionais, como os criminosos de guerra nazis ou os autores dos genocídios no Ruanda. E pessoas como Anwar Congo continuam a ser vistos como 'heróis'.

Para ficar a conhecer um pouco mais sobre este projecto de Joshua Oppenheimer recomendo vivamente a visita ao site oficial do filme.

Classificação: 4/5


Para terminar o oitavo dia, depois de uma descida aos infernos, um regresso ao Paraíso de Ulrich Seidl para a última parte da trilogia «Paradise», desta vez com o primeiro capítulo da série, dedicado ao tema do Amor. Depois de nos mostrar a Fé de Anna Maria (protagonista de «Paradise: Faith») e a Esperança de Melanie (a personagem principal de «Paradise: Hope»), o cineasta austríaco leva-nos ao Quénia para acompanhar as férias de Teresa, irmã de Anna Maria e mãe de Melanie, que procura a todo o custo o Amor que (muito provavelmente) não encontra em casa, na sua Áustria natal, mas acaba por ter direito apenas a relações sexuais com diversos parceiros. Se de início a turista ocidental ainda quer acreditar que a sua primeira conquista está de facto apaixonada por ela, cedo se apercebe que o que o move é o dinheiro. E quando Teresa deixa de ter dinheiro para lhe pagar, este deixa de a 'amar'. A partir daqui Teresa deixa de ter fé no amor e todas as relações acabam por ser sexuais.

À semelhança do que constatáramos ao ver a terceira parte da trilogia (nota: apesar de lançados em alturas diferentes, os filmes não têm de ser vistos por ordem cronológica), também aqui ficamos com a sensação de que Seidl acaba por filmar o mesmo filme, mas com uma história diferente e com enfoque noutro tema. O que acaba por ser um pouco redutor, pois o efeito do primeiro filme acaba por ser perder aos poucos e acabamos por gostar mais de um ou outro determinado capítulo consoante a história ou o tema abordado. E «Paradise: Love» consegue estar ao nível de «Paradise: Faith», onde o olhar de Seidl volta a ser pouco simpático para as suas personagens (arriscamos mesmo dizer que o cineasta não tem qualquer pingo de amor pelas personagens dos seus filmes), sendo um filme que nos faz reflectir sobre coisas sérias a partir de tons de comédia negra. Como, aliás, provou ser todo o universo de Ulrich Seidl que nos trouxe o IndieLisboa este ano.

Classificação: 4/5